Produto Tensorial#
É possível compor dois espaços vetoriais para formar um terceiro espaço. Uma maneira de fazer isso é por meio do produto tensorial. Em Computação Quântica, essa construção é fundamental para se trabalhar com sistemas compostos por mais de um qubit. Um sistema de dois qubits será o produto tensorial de dois espaços \(\mathbb{C}^2\), que modelam um qubit.
Espaço Vetorial do Produto Tensorial#
Dados dois espaços vetorias \(V\) e \(W\), com bases \(\beta_V = \{ \ket{v_k} \}\) e \(\beta_W = \{ \ket{w_l} \}\), o produto tensorial de \(V\) e \(W\), denotado por \(V\otimes W\), é definido como o espaço vetorial gerado pela base:
A dimensão do espaço vetorial do produto tensorial é, portanto,
O produto tensorial \(\otimes\) forma uma dupla ordenada com propriedades diferentes das do produto cartesiano. Essas propriedades, listadas abaixos, são chamadas conjuntamente de bilinearidade:
Para todos \(z \in \mathbb{C}\), \(\ket{v}\in V\) e \(\ket{w} \in W\),
\[ z \cdot (\ket{v} \otimes \ket{w}) = (z\ket{v}) \otimes \ket{w} = \ket{v} \otimes(z\ket{w}) \ . \]Para todos \(\ket{v^1},\ket{v^2}\in V\) e \(\ket{w} \in W\),
\[ (\ket{v^1}+ \ket{v^2}) \otimes \ket{w} = \ket{v^1} \otimes \ket{w} + \ket{v^2} \otimes \ket{w} \ . \]Para todos \(\ket{v}\in V\) e \(\ket{w^1},\ket{w^2} \in W\),
\[ \ket{v} \otimes (\ket{w^1} + \ket{w^2}) = \ket{v} \otimes \ket{w^1} + \ket{v} \otimes \ket{w^2} \ . \]
Um elemento genérico do espaço \(V\otimes W\) é uma combinação linear dos vetores da base \(\ket{v_k} \otimes \ket{w_l}\). Em geral, essa combinação não pode ser escrita da forma fatorada \(\ket{v} \otimes \ket{w}\).
Exemplo
O sistema composto por 2 qubits é dado pelo produto tensorial de dois espaços vetoriais de 1 qubit. Esse espaço vetorial é denotado por \(\mathbb{C}^2 \otimes \mathbb{C}^2\). A base desse espaço é formada pelos 4 vetores
e as igualdades apresentadas acima apenas referem-se a notações alternativas e mais compactas. A ordem em que as entradas aparecem no produto tensorial é importante, de forma que \(\ket{01} \neq \ket{10}\), por exemplo.
Um vetor qualquer \(\ket{\psi} \in \mathbb{C}^2 \otimes \mathbb{C}^2\) pode ser escrito como
com \(a,b,c,d \in \mathbb{C}\). Alguns exemplos de vetores pertencentes ao espaço em questão são:
As igualdades acima são exemplos da bilinearidade do produto tensorial.
Comparação do Produto Tensorial com o Produto Cartesiano#
O produto cartesiano, às vezes chamado soma direta é outra maneira de se compor dois espaços vetoriais em um espaço “maior”, denotado por \(V \times W\) ou por \(V \oplus W\). O produto cartesiano é formado por duplas \(\big( \ket{v} , \ket{w} \big)\), com \(\ket{v} \in V\) e \(\ket{w} \in W\). Nesta subseção, a notação \(( \cdot \, , \cdot )\) refere-se a par ordenado em vez de produto interno como no restante do texto.
As diferenças entre essas duas operações estão dispostas no que segue:
Produto Tensorial |
Produto Cartesiano ou Soma Direta |
|
|---|---|---|
Notação: |
\(V \otimes W\) |
\(V \times W = V \oplus W\) |
Base: |
\(\ket{v_k} \otimes \ket{w_l}\) |
\(\big( \ket{v_k} , 0 \big) \ , \ \big( 0 , \ket{w_l} \big)\) |
Dimensão: |
\(\dim V \otimes W = \dim V \cdot \dim W\) |
\(\dim V \oplus W = \dim V + \dim W\) |
Outra diferença é que a soma, no produto cartesiano, é uma soma entrada a entrada
enquanto que a soma no produto tensorial, de modo geral, não se reduz
a não ser que, por exemplo, \(\ket{v^1} = \ket{v^2}\), de modo que
A multiplicação por escalar no produto cartesiano também é entrada a entrada
enquanto que, no produto tensorial, o escalar pode ser incorporado a qualquer das duas entradas, mas deve ir para apenas uma delas
Produto Interno#
Sejam \(V\) e \(W\) espaços de Hilbert, isto é, espaços munidos de produto interno. O produto tensorial \(V\otimes W\) pode ser munido com um produto interno derivado dos produtos internos de \(V\) e de \(W\). Defina:
estendendo a definição para elementos arbitrários do produto tensorial por linearidade na segunda entrada e antilinearidade na primeira.
Para dois vetores da forma \(\ket{v^1}\otimes \ket{w^1}\) e \(\ket{v^2}\otimes \ket{w^2}\) do produto tensorial, pode-se denotar
e decorre da definição de produto interno que
Exemplo
O espaço vetorial \(\mathbb{C}^2 \otimes \mathbb{C}^2\) que descreve 2 qubits foi apresentado no exemplo Espaço Vetorial de 2 Qubits. O produto interno nesse espaço é explicitado no que segue. Use os índices \(A\) e \(B\) para fazer referência à primeira e à segunda entrada tensorial, respectivamente.
O produto interno dos vetores da base é dado pela equação Produto Interno de Vetores da Base, que se traduz em
em que \(j,k,p,q = 0,1\). Por exemplo,
Sejam
O produto interno de \(\ket{\phi}\) com \(\ket{\psi}\) é dado por
A norma de \(\ket{\phi}\) é dada por
Exemplos:
Operadores#
Sejam \(A\) um operador em \(V\) e \(B\) um operador em \(W\). É possível definir um operador em \(V\otimes W\), denotado por \(A\otimes B\) de forma que
Todo operador em \(V \otimes W\) pode ser decomposto em uma combinação linear de operadores da forma apresentada anteriormente.
Pode-se mostrar que a composição, ou produto, de dois operadores \(A \otimes B\) e \(A' \otimes B'\) é dada por:
Exemplo
Sejam \(X\) e \(H\) operadores no espaço de 1 qubit dados por
Esses operadores foram utilizados em vários dentre os exemplos anteriores.
O operador \(H \otimes X\) atua no espaço de 2 qubits como no exemplo abaixo.
Se forem usados rótulos \(1\) e \(2\) para as entradas tensoriais, a conta do exemplo acima poderia ser reescrita como
Mais detalhes sobre a notação encontram-se na seção Produto Tensorial: Notação.
Produto de Kronecker#
Até então, o conceito de produto tensorial foi apresentado de maneira abstrata. É possível abordar esse conceito de maneira matricial também. Fixadas bases para \(V\) e \(W\), os vetores \(\ket{v}\) e \(\ket{w}\) desses espaços podem ser representados como vetores coluna. O vetor \(\ket{v} \otimes \ket{w}\) também pode ser representado como vetor coluna fazendo-se o produto de Kronecker.
Essa operação é mais facilmente compreendida por meio de um exemplo.
Exemplo
O produto tensorial de operadores em \(V\) e \(W\) também pode ser obtido matricialmente por meio do produto de Kronecker.
Exemplo
O produto de Kronecker, em geral, não é comutativo.
Se \(A \in M(m_A,n_A)\) e \(B \in M(m_B, n_B)\), então a matriz \(A \otimes B\) tem \(m_Am_B\) linhas e \(n_An_B\) colunas, ou seja, \(A\otimes B \in M(m_Am_B,n_An_B)\). Uma forma geral de escrever o elemento \(j,k\) da matriz \(A\otimes B\) é
em que
e, para \(x,y\) inteiros,
Exemplo
\(A_{2\times2}\) , \(B_{3\times2}\). O elemento \(4,2\) da matriz \(A\otimes B\) pode ser obtido por:
A matriz \(A\otimes B*\) está representada abaixo, destacando-se o elemento \(4,2\):
Produto Tensorial de Vários Espaços Vetoriais#
O produto tensorial de vários espaços vetoriais segue a mesma ideia do caso de dois espaços, apresentado anteriormente. A dimensão será o produto das dimensões de cada espaço. O produto tensorial é associativo, então não é necessário usar parênteses num produto tensorial de vários espaços. Não é possível comutar os fatores do produto tensorial.
Notação#
Em situações práticas, costuma-se usar índices em cada fator do produto tensorial para evitar confusões. Também há variantes que deixam a notação mais curta. Alguns comentários a respeito dessas variantes são abordados nesta seção. Para tratar disso, considere um exemplo em \(V\otimes W \otimes U\).
Pode-se denotar um elemento da forma \(\ket{v} \otimes \ket{w} \otimes \ket{u}\) omitindo-se o símbolo \(\otimes\): \(\ket{v} \ket{w} \ket{u}\). Nesse caso, deve-se tomar cuidado para não confundir essa justaposição com o produto matricial; nas situações de interesse, normalmente o produto matricial não será possível e há menos risco de confusão.
Costuma-se atribuir índices aos fatores: \(\ket{v} \otimes \ket{w} \otimes \ket{u} = \ket{v}_V \otimes \ket{w}_W \otimes \ket{u}_U = \ket{v}_V \ket{w}_W \ket{u}_U\). Ainda, pode-se escrever esse elemento como: \(\ket{v}_1 \ket{w}_2 \ket{u}_3\), ou \(\ket{v \, w \, u}_{VWU}\), ou, ainda, qualquer notação equivalente, que evidencie a que espaço cada ket pertence. Com a identificação por índices, é possível até trocar a ordem em que são escritos; não deve ser confundido com a comutatividade dos fatores, que não é permitida em geral. Assim, pode-se escrever: \(\ket{u}_3 \ket{w}_2 \ket{v}_1\).
Os bras também podem ser rotulados com índices. Por exemplo, escreve-se \(\big( \ket{v}_1 \ket{w}_2 \ket{u}_3\big)^\dagger = {}_1\bra{v} {}_2\bra{w} {}_3\bra{u}\), ou \(\ket{v \, w \, u}_{VWU}^{\ \ \dagger} = {}_{VWU}\bra{v \, w \, u}\).
Considere, agora, os operadores da forma \(A\otimes B\otimes C\), com \(A\), \(B\) e \(C\) operadores nos espaços \(V\), \(W\) e \(U\), respectivamente. É possível também atribuir índices nos operadores para lembrar em que espaço cada um deles atua. Por exemplo, pode-se denotar: \(A_1\otimes B_2\otimes C_3\).
Há situações em que se deseja operar apenas em uma das entradas do produto tensorial. Assim, por exemplo, \(A\ket{v} \otimes \ket{w}\otimes \ket{u} = A_1 \big( \ket{v} \otimes \ket{w}\otimes \ket{u} \big)\). Formalmente, \(A_1 = A \otimes I \otimes I\), nesse caso. O produto (ou composição) dos operadores \(A_1 B_2 C_3\) significa \((A\otimes I \otimes I) (I \otimes B \otimes I)(I \otimes I \otimes C) = AII \otimes IBI \otimes IIC = A\otimes B \otimes C\). Dessa forma, com os índices, pode-se escrever \(A_1 B_2 C_3 = A \otimes B \otimes C\) sem perigo de confusão com o produto matricial de \(A\), \(B\) e \(C\); Pode-se até mesmo trocar a ordem de como são escritos: \(B_2 A_1 C_3 = A\otimes B \otimes C\).
Outra notação bastante utilizada é quando se deseja realizar o produto tensorial entre \(n\) cópias de um vetor \(\ket{\psi}\). Define-se
Essa notação pode ser utilizada para bras e para operadores: \(\bra{\psi}^{\otimes n}\), \(A^{\otimes n }\). Também é possível usar uma notação análoga ao produtório para denotar, por exemplo,
Há, pois, diversas maneiras de se denotar os mesmos vetores ou operadores. Essa variedade é útil para permitir a escrita de expressões compactas em diversas situações em que o produto tensorial aparece.